Silagem de milho reidratado – A chance de planejar o estoque e melhorar a digestibilidade do amido de milho ao mesmo tempo. Parte I

Porque fazer?

Quando falamos em silagem logo nos vem à cabeça a ideia da silagem de plantas inteiras de milho. Entretanto, uma pergunta permanece. Somente a tradicional silagem de plantas inteiras de milho tem viabilidade nutricional e econômica para estarem dentro de nossas propriedades leiteiras? Ao longo do tempo muitos questionamentos têm sido feitos sobre quais os melhores materiais e quais as melhores estratégias para o uso da técnica de ensilagem.

Tradicionalmente, o uso da planta inteira de milho tem gerado resultado muito bom no quesito armazenamento de alimento de qualidade nutricional e competitividade econômica, sendo uma opção praticamente inseparável da maioria das fazendas produtoras de leite. Entretanto, vacas leiteiras de média e alta produção não se alimentam somente de silagem de milho de planta inteira, a dieta desses animais geralmente demanda elevadas quantidade de ingredientes concentrados para adensar as dietas e suprir suas demandas por nutrientes. Um dos ingredientes demandados na dieta de vacas leiteiras é o milho em grão.  O uso de milho em grãos moídos é uma prática tão comum quanto o uso de silagem da planta inteira. Dependendo o nível de produção do rebanho, não é incomum o fornecimento de 5 a 10 Kg de grãos de milho moído, para suprir a demanda de energia necessária para suportar a produção de leite.  Porém, muitas vezes a elevada quantidade de milho fornecido se traduz em uma significativa quantidade de partículas de milho nas fezes dos animais. Este fato se deve a baixa digestibilidade do amido de alguns híbridos de alta vitreosidade plantados no Brasil.

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Processo de reidratação de milho moído seco em peneira de 2 mm utilizando vagão misturador de dieta.

A vitreosidade é uma medida adotada para quantificar a porção do endosperma do grão de milho que é envolvido por um tipo especifico de proteína de reserva (A zeína é a principal) que possuí como principal característica, ser uma proteína hídrofóbica, ou seja, não se dissolve e repele a água. A característica de vitreosidade impede que além da água, as enzimas responsáveis pela degradação do amido, que esta envolto pela zeína, cheguem até o seu local de ação. Outro aspecto crítico a ser levado em consideração, é que o ponto máximo de maturação do grão, ou seja, quando ele é colhido para armazenamento a seco, (sistema predominante no Brasil), é também o ponto de máxima vitreosidade. Para agravar mais ainda a situação, a maior parte do híbridos disponíveis para plantio no Brasil possuem média ou alta vitreosidade, pois são os híbridos mais adaptados a resistentes a pragas de lavoura e de armazenamento.  Estes fatores aliados a elevada taxa de passagem da dieta pelo trato digestório dos animais de alta produção, reduzem ainda mais a digestibilidade do amido do milho. Estratégias para contornar estes problemas passam por uso de híbridos com menores teores de vitreosidade, processamentos intensos dos grãos tais como moagens finas, floculações ou a confecção da chamada silagem de grão úmido, que consiste em colher o milho no estágio de linha negra, moer e armazenar no silo.

Algumas dessas técnicas apresentam certa complexidade em seu processo de execução. A moagem  fina ao ponto de amenizar o problema de digestibilidade do milho causado pela vitreosidade (< 1 mm)  é um processo lento e custoso que deve ser feito constantemente, demandando espaço para armazenamento longe de fontes de umidade. O uso da floculação requer equipamentos pouco disponíveis no Brasil, o que faz com que existam poucos e distantes pontos onde são realizados estes processos, obrigando o milho floculado a percorer grandes distâncias através de transporte rodoviário, o que gera alto custo e dependência de redes logísticas. Uma alternativa bastante atraente é a confecção da silagem dos grãos quando os mesmos se encontra em estágio de linha negra, ou teor de umidade entre 35 e 40%. Este tipo de silagem não é uma técnica nova e já foi bastante estudada com centenas de relatos positivos em comparação ao uso de milho seco, demonstrando vantagens nutricionais e econômicas quando substitui o tradicional milho seco moído.

Quando visitamos fazendas de produção de leite Brasil a fora, ainda vemos o predomínio do uso dos grãos secos moídos para a alimentação dos animais.  Esta situação prevalece porque a silagem de grãos úmidos não é mais difundida, embora seja uma tecnologia simples e que traz vantagens em relação ao uso dos grãos secos. E quando começamos a analisar a realidade das fazendas, alguns gargalos começam a surgir como obstáculos na confecção da silagem:

1ª- Em grande parte do Brasil o período de chuvas é coincidente com o período em que o milho se encontra no ponto de confecção da silagem de grãos úmidos, restringindo ou anulando a janela de corte para este tipo de silagem.

2ª- A grande maioria das fazendas brasileiras não dispõe de equipamentos que consigam processar rapidamente os grãos colhidos, uma vez que a moagem de grão com elevada umidade é um processo mais lento, tornando todo o processo lento e trabalhoso, o que desencoraja muitos produtores.

3ª- A cultura tipicamente brasileira da falta de planejamento impede que muitas fazendas se preparem com silos adequados para um correto armazenamento desse tipo de silagem.

4ª- A ausência de monitoramento claro da eficiência econômica e nutricional do uso de uma determinada tecnologia em muitas fazendas do Brasil não permite ao produtor compreender as vantagens do sistema.

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Distribuição e compactação da silagem de milho reidratado em silo do tipo trincheira de superfície.

Deste modo, alguns ou muitos produtores acabam abandonando a técnica e utilizando os grãos colhidos secos e armazenados em locais terceirizados (empresas cerealistas) ou ainda a chamada ração pronta,  sem nem perceberem que estão arcando com uma série de custos (impostos, fretes e taxas),  percas de qualidade nutricional (ataque de pragas de armazenamento) e de digestibilidade (menor digestibilidade do amido em relação ao uso de silagem de grãos úmidos).

Devido a série de gargalos discutidos anteriormente, foi desenvolvida a técnica denominada reidratação e ensilagem para grãos de milho e sorgo. Esta técnica consiste em moer o milho ou o sorgo independentemente destes grãos já terem menos umidade do que o necessário para se conservarem pelo processo de ensilagem. A correção da umidade acontecerá posteriormente, quando os grãos são reidratados até o ponto de atingirem o teor de umidade necessário para fermentarem dentro do silo. Este tipo de técnica permite algumas vantagens  de acordo com as características de cada fazenda:

1. Ter maior independência sobre os períodos de chuva para realizar o processamento do milho.

2. Maior agilidade na moagem do milho pelo seu menor teor de umidade, facilitando o uso de equipamentos de moagem de menor potência.

3. O produtor consegue realizar moagens mais finas em relação à moagem para a confecção de silagem de grãos úmidos, o que aumenta a digestibilidade inicial do amido e também acelera a velocidade do aumento da digestibilidade do amido ao longo do tempo de ensilagem.

4. Ausência da necessidade de pagar os custos de armazenagem que os grãos secos possuem.

5. Reduz drasticamente as perdas por ataques de pragas de armazenamento.

6. Permite a conservação da silagem por vários anos.

7. Permite comprar grãos em oportunidades onde os mesmos se apresentem com custo baixo, em qualquer época do ano.

 

É importante salientar que não existe uma técnica melhor ou pior, mas sim as que melhor se adaptam a realidade de cada fazenda. Sendo o milho o nosso principal concentrado energético, a silagem de milho reidratado pode aumentar consideravelmente a eficiência alimentar e consequentemente econômica dos rebanhos leiteiros na maioria das fazendas brasileiras. Estas são algumas vantagens que podem auxiliar os produtores a perceberem que é possível trabalhar com híbridos que possuem elevado teor de vitreosidade e obter bons resultados, desde que se tenha planejamento e aplicação da técnica mais adequada para aquela situação. Na próxima parte deste artigo discutiremos os resultados possíveis de serem alcançados ao longo do tempo de ensilagem em termos de digestibilidade do amido do milho e seu impacto na produção de leite com o uso de silagem de milho reidratado.

 

Referências

Ferraretto, L.F., Fredin, S.M., Shaver, R.D., 2015. Influence of ensiling, exogenous protease addition, and bacterial inoculation on fermentation profile, nitrogen fractions, and ruminal in vitro starch digestibility in rehydrated and high-moisture corn. J. Dairy Sci. 98, 7318–7327.

M.A. Arcari, C.M.M.R. Martins, T. Tomazi, J.L. Gonc¸ alves, M.V. Santos. 2016. Effect of substituting dry corn with rehydrated ensiled cornon dairy cow milk yield and nutrient digestibility. Animal Feed Science and Technology 221 (2016) 167–173.

 

Autor convidado

Igor Giacobbo – Graduando do Curso de Medicina Veterinária IMED – Passo Fundo/RS

Marcos Arcari

Médico Veterinário. Consultor em nutrição e qualidade do leite. Responsável Técnico pelo laboratório LabMast - Passo Fundo/RS

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